A verdade política nua e crua

Existe uma face mais cruel da corrupção sistêmica no Brasil, ela paralisa o país

Não é de hoje que os bastidores do poder escondem histórias das mais absurdas. Desde os tempos primórdios da República Velha suscitam contos que mais parecem advindos de livros infantis daqueles com magos e bruxas. Nos faz pensar que em diversas vezes na jovem República brasileira tivemos episódios onde a moral e a ética foram deixadas de lado em prol do desenvolvimento nacional ou para melhorar a vida dos mais pobres. Surgiu daí o famoso jargão “rouba mas faz” dado principalmente a Paulo Maluf (PP/SP) quando prefeito de São Paulo superfaturou obras na cidade.

Com isso se criou um costume no mundo da política que para ser um bom político deveria saber enrolar. Na melhor arte da malandragem tinha uma certa vantagem o cidadão que dispunha de tal habilidade caracterizada como pré-requisito. Nessa questão temos políticos que se tornaram folclore, como próprio Maluf, Renan Calheiros (PMDB/AL), Jader Barbalho (PMDB/PA), Fernando Collor (PTC/AL), entre outros. Tinham em suas palavras a doce arte de enrolar o eleitorado, que cego — por necessidade ou vontade — permaneceria durante décadas votando nos mesmos candidatos.

Em outras palavras a política nunca foi palco para o cidadão correto e pagador de seus tributos. Era o mundo das portas fechadas, das negociações escondidas, dos jeitinhos que tornavam pessoas comuns em milionários num piscar de olhos. Reza a lenda que quando um filho abastado não tinha tino para fazer nada a não ser “tagarelar”, seu pai dava um jeito de colocá-lo na política. Ao menos por lá poderia agraciar sua família com os deleites do poder.

E que deleites! Semana mais curta, salário pomposo, jato particular, reuniões com mega empresários, jantares chiques. Seria de se estranhar que não houvessem no meio de tudo isso as traições conjugais, para tornar o cenário mais caricato. Assim entre um vinho e uma dose de uísque importado, o nobre político plantado ali se usufruía das vantagens do cargo ocupado como parlamentar ou diretor de alguma estatal.

Sendo que nós nobres eleitores vislumbrávamos com certa desdém aquele mundo da fantasia, onde não existem ônibus lotados, filas em hospitais e tudo funciona perfeitamente ao ressoar de uma caneta pressionada em uma folha timbrada. Nunca haveríamos de gostar de tal estirpe, porém não deixávamos de acompanhar o desenrolar daqueles que decidiam assuntos e temas de nossa vida mais cotidiana como uma escola no bairro, uma ponte para a cidade ou um posto de saúde completo.

Mas eis que veio a Lava Jato, um posto de gasolina que lavava dinheiro por meio de limpezas automotivas e um delator — com medo ou pressionado — disse com todas as letras: “mas isso tem haver com o doleiro de Brasília”? Então começou a verdade surgir diante dos olhos.

Bem-vindo a selva

A banda Guns n’ Roses tem uma canção que mostra bem o período que passamos: Welcome to the Jungle. Não que a letra simbolize operações da Polícia Federal ou descreva o juiz federal Sérgio Moro, mas sim o nome. Estamos hoje vivenciando a selva que era a política nacional. Uma mata fechada onde poucos poderiam entrar, exceto se participassem do jogo toma lá, dá cá. Deveriam esquecer da ética dada em casa ou quem sabe da moral aprendida na escola. Precisariam se despir de todos os princípios arraigados por meio das crenças em divindades e lançar mão na cumbuca cheia de cédulas.

Seja da esquerda defensora do mais pobre e proletário, seja da direita mais interessada na economia de mercado, seja do centro fisiológico ou do candidato mais “cristão”, todas as vertentes se usaram da versão mais nefasta atribuída ao ganha-ganha. Mesmo que alguém diga que isso é normal em outras culturas, no qual empresas oferecem dinheiro para políticos a fim de beneficiar-se, aqui o fluxo foi inverso. Acostumados com a falta de rigor no uso do dinheiro, partindo da ideia que seria uma sacola sem fim, políticos de várias cores partidárias se chafurdaram nos recursos de empreiteiras, principalmente da Odebrecht.

No começo, segundo as delações por ora mostradas pela imprensa, a empreiteira buscava os políticos para que obtivessem vantagens. Caberia ao político honesto (ou com um mínimo de sendo ético) negar tal auxílio, não por ser santo, mas porque era o minimamente correto a se fazer. Mas como em terra brasilis tudo é com interesses pessoais bem acima dos interesses sociais, a grande maioria aceitou a ajuda, somente preocupados com as próximas eleições. Em outras palavras, políticos estavam somente interessados em manter suas benesses, ponto.

Algo que políticos não esperavam é que dinheiro tem fim. Quando ascendeu ao poder com seu partido, Lula, começou a procurar a empreiteira, de tal forma que esta chegou a “abrir uma conta corrente” para ele movimentar recursos de propina por participação em obras estatais. Nesse momento o fluxo se inverteu: não foi mais a empresa que queria o político, foi o político que queria a empreiteira.

A prática restrita somente a um que outro partido se alastrou por outras legendas, preocupadas somente em angariar recursos para produzirem campanhas mais suntuosas, melhores até mesmo que as campanhas norte-americanas. Ou seja, sem dinheiro não existe eleição.

Pastor Everaldo, líder do PSC, candidato a presidência em 2014 (Divulgação)

Se nota que somente uma pessoa relatada nos depoimentos foi procurada pela empreiteira, Pastor Everaldo (PSC). Candidato a presidente em 2014, ele estava em ascensão nas pesquisas, então a empreiteira resolveu dar uma ajuda com dinheiro depositado em caixa 2. Essa ajuda chegou ao montante em R$ 6 milhões de reais. Porém após os potenciais eleitores do Pastor migraram para a candidata Marina Silva (Rede, PSB na época) após morrer o candidato Eduardo Campos, companheiro de chapa. Assim a Odebrecht mudou de candidato e escolheu Aécio Neves (PSDB/MG), incentivando o Pastor a apoia-lo.

Políticos em atividade que estão “na lista” do ministro do STF Edson Fachin (Câmara dos Deputados/Arte G1)

Só que a selva politiqueira não se resume a Lula, Aécio ou o Pastor, envolve 195 investigados, entre ex-presidentes, ministros de Estado, ministros de tribunais, deputados e senadores. Sem contar aqueles que não estão investigados mas figuram nas delações como elementos como ex-governadores, deputados estaduais, prefeitos, vereadores, entre outros.

Lobby

Antes sinônimo de entrada de hotel se tornou a prática de compra de políticos em troca de favorecimento na aprovação de leis. Nos EUA a prática não é considerada crime, mas há um limite para tal ação. Na Europa em certos países não e crime, mas não valeria a pena executar algo assim. Por aqui não é de hoje que existe. Inclusive existe uma associação que tenta regulamentar a profissão (pasmem, é profissão). Recebeu em nossas paragens o nome de “relações governamentais” e na prática serve de bom trânsito que algumas pessoas tem com governos, políticos e partidos para obter contratos e/ou vender algum produto ou serviço para entes públicos.

De acordo com delação de Emílio Odebrecht a prática de propina para auxiliar políticos com a finalidade de conquistar obras ocorre há mais de 30 anos no Brasil. Seu filho Marcelo declarou a Justiça Federal que a ação nos anos 1980 acontecia no próprio canteiro de obras, que tecnicamente seriam superfaturadas, sendo a diferença paga ali mesmo para o político. No entanto com o passar dos anos foi necessária a profissionalização dos pagamentos ilícitos devido a contabilização ficar mais simples daquela realizada de meio direto. Assim se implementou um sistema próprio e um departamento próprio, chamado pelos procuradores especiais da Lava Jato no MPF de “departamento da propina”.

Não seria de estranhar a utilização de um sistema para este fim. Com volumes cada vez maiores de pagamentos irregulares, o formato antigo não poderia em hipótese alguma ter “êxito” como teve. De acordo com estimativas foram destinados para este fim R$ 500 milhões de reais, oriundos de obras superfaturadas, inviáveis, desviadas, entre outras formas de ilicitude. Para se ter uma ideia do tamanho do estrago que todo o esquema causou no site específico da Lava Jato no MPF tem o seguinte relato:

Estima-se que o volume de recursos desviados dos cofres da Petrobras, maior estatal do país, esteja na casa de bilhões de reais. Soma-se a isso a expressão econômica e política dos suspeitos de participar do esquema de corrupção que envolve a companhia. (Fonte) (grifo nosso)

Crise econômica

Afirmam economistas que a crise econômica foi devido a erros de condução da política macroeconômica, dentre elas o aumento significativo do gasto público. De fato não há evidências contundentes quanto ao aumento do gasto público e a contratação (para fins ilícitos) de empreiteiras. Porém o que se sabe é que este aumento no gasto público por parte dos governos petistas (Lula e Dilma) fez com que diminuíssem os investimentos por parte do governo federal para setores da economia, por sua vez diminuindo investimentos em toda a cadeia produtiva.

Entretanto algo que não se observa é que o rombo causado pela corrupção em nossa economia também levou nosso país para o buraco. A falta de ingerência dos políticos envolvidos, preocupados somente em salvaguardar seu mandato, tornou o Congresso Nacional um gigantesco balcão de negócios. Por lá eram realizadas reuniões não com o intuito de melhorar a condição de vidas das pessoas, mas sim com o objetivo de melhorar a condição de vida dos negócios representados por uma minoria.

Observa-se que a falta de ingerência em querer o melhor para as pessoas leva o país ao caos que vivemos: sem educação de qualidade, sem segurança pública, com hospitais sucateados, desemprego, etc. Em outras palavras se houvesse de fato vontade em construir um governo preocupado com a população boa parte dos problemas endêmicos de nosso país estariam solucionados.

Thomas Sowell, economista e pensador político norte-americano tem um conceito sobre os políticos:

Ninguém entende de verdade a política até compreender que os políticos não estão tentando resolver os nossos problemas. Eles estão tentando resolver seus próprios problemas — dentre os quais ser eleito e reeleito são número 1 e número 2. O que quer que seja o número 3 está bem longe atrás.

Existe solução?

Se pode até imaginar que diante de uma selva densa como essa não poderemos ter uma luz no final dela. Porém existe uma clareira que amedronta qualquer político, seja ele inescrupuloso ou não: o voto. Felizmente no Brasil vivemos uma relativa democracia, onde a vontade da maioria nas urnas vence. Dizem que o reflexo dos políticos é o próprio eleitorado, e pode até ser. Durante anos nós brasileiros vivemos apáticos e distantes da política, acreditando que esta era feita somente para malandros. Conseguimos com isso deixar que ela fosse ocupada por malandros de verdade, mas não como o malandro folclórico das rodas de samba, mas ladrões que dia e noite roubavam sem que nada fizéssemos.

Aprendemos que a pressão das pessoas é capaz de mudar a ordem das coisas. Graças a população que lotou ruas e praças conseguimos pressionar os políticos para afastar um governo que institucionalizou a corrupção que já era praticada. Agora cabe a nos manifestarmos mais uma vez, não nas ruas ou praças, mas nas urnas para tirar cada um dos políticos envolvidos nesse e em outros esquemas de corrupção.

Não podemos ficar inertes e creditar ao tempo a solução de todos os males. Não podemos ficar somente deixando aos messias ou salvadores as soluções para os problemas de nosso país. Se queremos soluções precisamos buscá-las por iniciativa própria conversando bem proximamente de políticos e governantes.

Sei que é incômodo nos preocuparmos com mais esse tema, com tantas outras coisas que precisamos fazer diariamente, ter que cobrar políticos ficará — sem sombra de dúvida — em último plano. Mas é exatamente para não precisarmos lembrar os políticos que devemos exigir que realizem aquilo de necessário para tornar nossas cidades, estados e país melhores. Somente exigindo e participando da política que aqueles que adquirem mandatos ouviram vozes a gritar em seu subconsciente.

Com a combinação do voto e da vigilância poderemos mudar nosso Brasil e de uma vez por todas nos tornar no país do verdadeiro futuro.

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