A família debaixo da marquise

Uma história não contada sobre a crise

Imagem retirada de série fotográfica sobre moradores de rua (Rosie Holtom)

Mais um dia chuvoso na cidade serrana de Caxias do Sul. Algo normal para quem nasceu e se criou na segunda maior cidade gaúcha. Principalmente no início do outono ainda é relativamente quente para os padrões pós verão, porém chove com frequência. E junto com a chuva vem aquele vento gelado característico, como uma lembrança do inverno que se avizinha.

Como não disponho de carro — do contrário que imaginam — viajo de ônibus para lá e para cá. Não me importo, talvez por imposição da circunstância ou quem sabe por preguiça de dirigir ou ainda por estar em contato com histórias relatadas dentro dos coletivos semi lotados.

A chuva prosseguia constante e fina, caindo sobre as poucas pessoas que, corajosamente, saíram de suas casas no domingo matutino e vazio — também comum . Olhei a minha volta na “parada” de ônibus​ e havia somente três pessoas. Um gelo correu pela espinha. Preocupado com minha segurança fiquei a olhar enlouquecidamente para todos os lados. Não havia perigo nas pessoas ali dispostas, mas o instinto falou mais alto.

Para minha sorte a linha que esperava passou assim que olhei em volta. Uma mistura de alento e sublimação tomou conta. Retirei meu cartão eletrônico e subi as escadas cumprimentando o motorista do coletivo. Não me surpreendeu seu “bom dia” tão cinza quanto o dia, estava a trabalhar no domingo.

Entrei e sentei, como de costume, na janela para ver o cenário digno de filme distópico — no melhor estilo Walking Dead . Observei que ao invés de zumbis estavam amontoados embaixo de marquises diversos moradores de rua. Contei cinco em uma quadra. Nunca havia os observado com tanta clareza, quem sabe pela correria cotidiana.

Entretanto vi em uma marquise um pequeno grupo enrolados em cobertores, dormindo. Contei rapidamente enquanto o ônibus passava: um, dois, três. Eram três pessoas que estavam ali dormindo e quem sabe sonhando com uma cama confortável. Entretanto me chamou atenção que não eram todos adultos, havia uma criança. Aparentava uns seis ou sete anos, e deitada estava dormindo profundamente. Próximo dela estava um adulto homem, com aparência magra e a seu lado uma mulher, igualmente magra. Todos os três dormiam ali, em meio a cobertores sujos, em cima de colchões molhados.

Pensei em desembarcar e ir até a suposta família perguntar se precisavam de ajuda, mas a velocidade do ônibus — e em parte meu descompromisso com o fato — me impediram de agir. Entretanto aquela cena ficou fixa em minha mente por algumas horas, quem sabe por ser uma família, quem sabe por haver uma criança envolvida. Pensei que fosse devido a como viviam, mas não. Refletindo melhor sobre aquela cena vi o retrato da crise econômica, mesmo não sabendo a origem da família.

Posso parecer ingênuo em demasia, mas jamais um pai ou mãe iria querer ver seu filho dormindo no chão frio embaixo de uma marquise. Moveriam céu e terra para dar um pouco de conforto que fosse para sua prole. Assim, imagino, não haveria motivo maior para estar desalojada tal família que o desemprego, a falta de oportunidades, ou a fonte de recursos ter secado. Poderiam ser oriundos da drogadicção, que leva milhares de pessoas a habitar nas ruas e achacar os transeuntes que passam aqui ou acolá por um mero trocado em busca de mais um “baseado”. Mas não enxerguei esse perfil.

Naqueles poucos segundos, deitados sob a marquise vi uma história ser desenrolada, proveniente dos desencantos da vida, da exclusão social, da crise que surgiu e levou tantos a mendigar por um pedaço de pão. Não conheço pessoalmente alguém que depois de perder o emprego ter que se virar a própria sorte nas ruas da cidade, quem sabe desconheça por ter perdido o contato. Porém sei de diversas histórias, de pessoas que comem sanduíches por não ter recursos para colocar um prato de comida na mesa, que perderam móveis por não conseguir pagar as prestações, que choram por estar na penúria.

Não conheci pessoalmente a família embaixo da marquise, nem sei se voltarei a vê-la. Mas sei que o retrato dela reflete 13,5 milhões de histórias de tristeza e angústia e não apenas uma mera estatística.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s