O perfil do novo “político líquido”

Como devem agir os políticos a partir de uma sociedade líquida


Após a queda de Dilma Rousseff vivemos tempos confusos no que tange a política brasileira. Podemos dizer que já passamos pelo pior, chegamos a flertar com uma potencial revolução social, entretanto conseguimos, como sociedade chegar a uma convivência pacífica no aspecto ideológico. Porém ainda não há possibilidade de alinhar o espectro político dentro do pensamento do brasileiro.

Infelizmente durante anos tivemos somente um pensamento político vigente na agenda nacional. Após a ditadura militar, orientada a combater o comunismo — e tão somente isso — houve um distanciamento do modelo nacionalista de extrema-direita que permeou a política nacional por longos 20 anos. Era natural que isso ocorresse. Dessa forma todos os aspectos da sociedade voltaram-se para uma orientação mais “a esquerda” se pode dizer.

Embora alguns setores estigmatizam esse período como uma sombra na sociedade brasileira, precisamos analisar que foi neste período que surgiram conquistas sociais importantes. Neste mesmo período houve uma maior abertura de mercado, equilíbrio na renda da população, elevação do poder de compra, promoção da educação como forma de promover crescimento social. Este processo culminou com a expansão da classe média, levando milhões de brasileiros da categoria de pobres para um patamar superior.

Tudo poderia ter dado certo em aspectos econômicos e sociais exceto se a fome de dinheiro não falasse mais alto entre os políticos. Para facilitar a aprovação de medidas controversas governos de PSDB e PT propiciaram o maior episódio de corrupção que se tem notícia na história mundial. Se somarmos os números de “Mensalão” e “Lava Jato” podemos facilmente chegar a cifra de R$ 10 bilhões de reais em desvios.

Sem dinheiro para alimentar subsídios — alavancados no governo de Dilma — a economia entrou em colapso, levando consigo não somente a chamada “nova classe média” mas milhões de trabalhadores de todos os setores. Assim o sonho de creditar ao país a social-democracia européia ruiu como um castelo de cartas.

Diante desse cenário de desolação a população antes acostumada com as vantagens de melhorar de vida foi as ruas cobrar seu tempo de glória. Não há nada de errado nisso. Mesmo com setores da dita esquerda brasileira se mostrando contrários (ou por má-fé ou por apego) aquilo que o povo pedia era um conserto da economia, a fim de proporcionar emprego e retomada daquilo que fora perdido. Em parte o objetivo foi atingido, talvez como bode expiatório, Dilma sofreu o impeachment depois de quase 8 meses de reuniões, comissões e pressão popular intensa nas ruas.

Havia a possibilidade de uma retomada e a crença de melhora era sentida em diversos setores da sociedade. Se cria na possibilidade de um novo presidente acabar com a sensação de impunidade e em decorrência organizar novamente a economia proporcionando a volta e a melhora na qualidade de vida da população. Entretanto ocorreu o contrário.

Passados quase um ano do afastamento da presidente Dilma, o novo presidente Michel Temer (PMDB) não resolveu de maneira profunda os problemas econômicos. Tentou por meio de uma emenda a Constituição limitar os gastos públicos da União como forma de estancar a sangria do PIB brasileiro, porém tenta a duras penas aprovar uma reforma previdenciária que empurra a conta para as próximas gerações e defender-se de acusações de corrupção em seu tenro governo.

Nesse emaranhado de situações ressurge uma figura quase mítica da política nacional como potencial “salvador” da nação. Luís Inácio Lula da Silva (PT) que foi presidente nos tempos de “vacas gordas” tenta se apegar a inabilidade do governo Temer para alcançar novamente o posto de líder do país. Porém dessa vez não cola seu discurso de membro do povo, ou quem sabe, oriundo das camadas populares. Com uma rejeição perto dos 47% de acordo com pesquisa da Paraná Pesquisas, será muito difícil emplacar uma agenda propositiva sem se descolar de acusações no processo da operação Lava Jato.

Dentro deste contexto está o brasileiro que durante uma vida foi educado com preceitos de “esquerda”, vivendo em um ambiente confuso e com o crescimento do pensamento de “direita”. Apaixonado por um emprego público, descrente nos políticos, confiante nas empresas estatais e contra o FGTS e direitos trabalhistas, o brasileiro se vê confuso naquilo que chamamos de ideologias. Ou será que está de acordo com tempos modernos?

A figura do político gestor

Apesar de não gostar de empregos na iniciativa privada, a maioria dos brasileiros concorda que empresas privadas funcionam melhores que as públicas. Assim nada seria ideal que imputar gestores de empresas em postos públicos, com isso haveria uma profissionalização do serviço público. Pensando assim candidatos que descolaram do perfil de político e colaram no perfil de gestor ficaram em primeiros lugares alcançando prefeituras em todo o país.

O “não político” mais famoso até o momento é João Doria (PSDB) que foi eleito ainda no primeiro turno na capital paulista. Com enorme aprovação popular o “prefeito-gestor” realizou série de medidas que agradaram alguns e desagradaram outros. Uma de suas decisões polêmicas foi “apagar” grafites pela cidade. Diversos artistas protestaram como se estivesse usurpando o direito de expressar arte.

Mas esse não foi o aspecto mais agressivo até então: em seu primeiro dia como prefeito vestiu-se de gari e foi para a rua ajudar outros garis limpar algumas calçadas. Claro, a ação tinha por objetivo demonstrar a população que ele colocava a “mão na massa”, diferente dos políticos tradicionais que vivem acastelados em seus gabinetes e se unem as massas em tempos de eleição.

João Doria vestiu-se como gari (Divulgação)

Se avaliarmos as posturas de Doria no que tange a ciência da Administração todas estão corretas: mostra-se disponível, convive com subordinados, trabalha focado em resultados e delega missões para seus comandados. Nada diz que é um péssimo gestor, até mesmo porque construiu fortuna com suas empresas. Entretanto na ciência (ou arte) política a figura do gestor colide facilmente.

Atraindo de forma hábil para si a mesma pecha de Doria, o prefeito de Caxias do Sul (RS), Daniel Guerra (PRB) tornou sucesso nacional ao gravar em vídeo um telefonema seu para um médico que faltou ao trabalho. A repercussão foi grande e positiva. Sabe-se que o prefeito tem um apoio popular invejável, foi eleito com mais de 60% dos votos em segundo turno. Não há na cidade quem não fale bem do prefeito, algo raro em tempo que os políticos estão em baixa.

Prefeito de Caxias do Sul (RS) Daniel Guerra (PRB) telefonando para médico (Reprodução/PMCS)

Baseado na premissa do gestor o prefeito de Caxias estava correto: quando um funcionário está em débito com a organização deve ser chamado a atenção. Isso reprime ações iguais e torna o ambiente corporativo pleno para obter resultados. Em reincidência o tal funcionário pode ser demitido, se na iniciativa privada estivesse.

E nesse ponto que começa ocorrer o choque da política com a gestão. Por se tratar de servidor público, este detém estabilidade. A bronca do gestor por mais que pareça correta expôs a fragilidade na relação entre gestor (prefeito) e funcionário (servidor). Enquanto o primeiro lá está graças ao poder do voto e sua permanência é temporária, o segundo lá está até quando assim o desejar, gozando de permanência quase que vitalícia. Para compreender esse choque precisamos analisar os aspectos que norteiam a Administração, dentre eles o aspecto de liderança de fato.

Em uma organização normalmente o líder (ou proprietário) detém as rédeas de todos os aspectos desta. Dessa forma dele emana ordens e pedidos e consequentemente retorna para ele tais resultados destas ordens e pedidos. Basicamente as empresas, em sua maioria, não operam em um regime predominantemente democrático, ou seja, a decisão da maioria vence. Trabalhando em regime democrático as empresas tenderiam a falência, até mesmo porque se em decisão colegiada fosse deliberado trabalho em meio turno diariamente, por exemplo, não haveriam resultados suficientes para a manutenção do negócio.

Já na iniciativa pública reina o aspecto da decisão democrática, ou seja, o líder (seja ele prefeito, secretário ou diretor) obrigado a deliberar com líderes informais — mas com poder sobre os demais — como conduzir determinada ação pública. A partir disso se toma as decisões perante a toda a população.

Ocorre que grande parte da população desconhece tal premissa inerente ao líder público, impetrando a este a ideia que poderá exercer sua função sem prejuízo maior. No entanto a própria sociedade será vítima deste desconhecimento, voltando para si mesma a atitude coercitiva do gestor privado. Enquanto que na iniciativa privada o gestor pode determinar demandas, na esfera pública o gestor orienta demandas, objetivando o crescimento da sociedade como um todo e não somente a obtenção de resultados ou cumprimento de metas.

A figura do político salvador

Mesmo já sabendo que não será nada positivo o resultado final, ainda existem diversos eleitores que creem no político salvador. Sem preparo nenhum sobre os problemas perenes da população, utilizam uma cartilha ideológica permeada por aforismas antigos.

Exemplo de político que usa o preceito de salvador é Jair Bolsonaro (PSC/RJ): se apega a problemas cotidianos e cria soluções simplórias, baseadas em preceitos conservadores. Há quem compare este com um “mito”, visto a suas conclusões lançadas nas redes sociais ou sua eloquência no plenário na Câmara dos Deputados. Com posições polêmicas tenta por todo custo caracterizar o papel de “solucionador dos problemas nacionais”, entretanto tem uma agenda confusa, baseada em combater ferozmente o comunismo.

Lula discursando na Avenida Paulista (Google)

Outro exemplo é o ex-presidente Lula (PT): tem por hábito criar a estigma de homem sofrido do Nordeste, oriundo do povo pobre do sertão. Apesar de ter sido eleito presidente por dois mandatos, ainda insiste em se caracterizar como único homem capaz de “solucionar os problemas nacionais”. Assim como Bolsonaro se baseia em agenda alicerçada nos pilares da ideologia marxista com dose de social-democracia, com forte combate ao que seus apoiadores chamam de neoliberalismo.

Tanto um quanto o outro representam lados opostos no espectro político tradicional, porém nenhum de seus eleitores tem por mote a ideologia política para definir seu voto neles. Entra em cena o aspecto emocional. A paixão pelo político colocando este na posição de semi-deus ignora fatores sociais ou científicos. Isso corrobora a ideia que mesmo estando errado seus apoiadores ainda os defendem.

Apesar de enunciar somente dois exemplos a política brasileira ainda é caracterizada por inúmeros casos de políticos salvadores, que se apoiam em discursos populistas, focando somente na obtenção do poder. Normalmente distantes de uma agenda propositiva estes acabam orientando a política nacional graças a exposição que a mídia coloca sobre. Não que isso seja errado, pelo contrário. O papel da imprensa é noticiar aquilo que é notícia. Caberia ao eleitor avaliar através de seu juízo de valor se vale a pena depositar seu voto nestes que tudo prometem e nada cumprem, algo que não acontece facilmente.

Dessa forma vemos a política polarizada entre extremos opostos com varas de condão nas mãos propensos a solucionar como mágicos os problemas mais profundos da sociedade.

A figura do político pensador

No entre meio daqueles que querem realizar gestão e aqueles que se julgam mágicos existem os políticos pensadores. Oriundos de diversas escolas do pensamento acadêmico, tais políticos pretendem levar a caso posições mais de encontro com as ciências sociais. Exemplos de políticos nesse patamar temos Marina Silva (Rede) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente e sociólogo renomado (Google)

Apesar de deterem conhecimento acadêmico em demasia, diferente dos políticos gestores ou salvadores, estes não conseguem apoio na grande massa (eleitores). Seu discurso fica restrito ao pensamento acadêmico se tornando mais fonte de conhecimento do que de políticas públicas eficazes para as pessoas.

Uma forma de compreender os políticos pensadores é analisar discursos de Fernando Henrique Cardoso enquanto presidente da República: a grande maioria suscitava preceitos e autores fora do cotidiano popular. Mesmo após uma depuração naquilo que falava, FHC teve muito trabalho em aprovar medidas como as privatizações em 1997.

Na sociedade existem diversos políticos pensadores com cargos eletivos, mas todos são colocados em crédito de “lunáticos”. Um deles é o senador Cristovam Buarque (PPS/DF) que foi governador do Distrito Federal e ministro da Educação. Suas ideias quanto a educação foram tão revolucionárias que não emplacaram na sociedade, visto que seu mandato como ministro foi um dos mais curtos. Se não bastasse seu posicionamento ideológico (como todo pensador) é flexível ao conhecimento que se adquire, assim mudou três vezes de partido, caminhando da social-democracia (PT) para o socialismo de mercado (PPS).

Por este motivo grande parte dos políticos pensadores acabam tendo crédito para outros pensadores ou estudiosos ficando relegados ao esquecimento no cotidiano político nacional. Acabam lembrados quando os movimentos políticos se tornam complexos, sendo assim vozes de tranquilidade em meio ao caos.

O político líquido

Não podemos acreditar que existam políticos perfeitos, assim como não existem seres humanos perfeitos. Portanto não podemos imaginar um ser mítico capaz de solucionar os problemas do país, nem um administrador capaz de profissionalizar o serviço público e muito menos um pensador administrando o caos com teses.

A sociedade brasileira atual não detém mais ideologias como antigamente, portanto não permanece mais arraigada aos políticos. Como descreve Bauman a sociedade agora é líquida, fluida, ou seja, se modifica constantemente de maneira a não se comprometer com estruturas pré definidas. Da mesma forma os políticos contemporâneos devem se modificar tal qual a sociedade, compreendendo os anseios desta sem amarras aos ideologismos passados.

Portanto nada vale um político administrar bem se não compreende as necessidades do mais pobre, de nada adianta ter carisma se não consegue estar em patamar igual, de nada adianta a cátedra se não há entendimento por grande parte da população.

O político líquido está em conexão com a vontade da sociedade, vivência a contemporaneidade como um todo. Deve ser conhecedor profundo não só das mazelas que amedrontam, mas deve ser responsável por trazer soluções plausíveis e palatáveis. E mesmo que venha a caminhar por decisões espinhosas, deve saber ser fluido e líquido. Ser adaptável as circunstâncias que o rodeiam.

O político líquido, pertencente a uma sociedade líquida não pode se prender a dogmas ou ideias pré concebidas, deve ser uma pessoas voltada para o futuro, creditando a evolução e ao desenvolvimento de novas tecnologias encurtar caminhos para a população.

De acordo com Zygmunt Bauman a sociedade líquida não se “apega”, não forma vínculos duradouros de compromisso com nenhuma premissa. Diante disso o político líquido não pode se aprender simplesmente ao voto, pois este é volátil. Ter uma agenda política engessada também não pode fazer parte do político líquido.

Somente o político líquido pode vencer as eleições, somente ele pode compreender a população e suas reivindicações difusas, somente um político com essas características pode confirmar o desejo da sociedade.


Referências

  • Introdução A Teoria Geral da Administração — Idalberto Chiavenatto
  • Modernidade Líquida — Zygmunt Bauman
  • Sociedade, Educação e Cultura — Everaldo da Silva e Vilmar Urbaneski
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