Por favor, um tempo de Facebook

Houve um dia que não quis mais olhar para a rede do Zuckerberg


Minha timeline não é algo para os mais fracos. Com algo em torno de 3 mil conexões fez ou outra acabo por ler aquilo que não queria ler. Pode parecer estranho dizer que acabo vendo na minha tela um assunto que não me agrada, mas a realidade é essa. Vivemos em um mundo onde os assuntos e comentários da vida real permeiam com a vida virtual. Assim, da mesma forma que assuntos reais nos incomodam, virtuais podem nos incomodar também.

Estive presente online nas mais diversas redes sociais desde seus primórdios. Fui um dos primeiros adolescentes do meu prédio a ter uma conta no já falecido Orkut, não muito depois abri minha primeira conta no Twitter. Isso tudo permeado pelo MySpace — antes de virar rede social de músicos — lia de tudo um pouco. Mas nada se comparou ao Facebook, rede que adentrei em 2010.

Com um jeito novo de mostrar o mundo o Facebook revolucionou a forma de se comunicar, encurtou distâncias, tornou tudo mais simples. Basta um clique e já sabemos a vida de praticamente qualquer pessoa do planeta. Em outras palavras, nos tornamos vizinhos de cerca. Somos uma grande comunidade de bilhões de pessoas conectadas como se fossemos da mesma rua. Mas assim como qualquer rua existe aquele vizinho chato, aquela fofoqueira e o briguento.

Nosso reflexo social se reflete no Facebook e vice-versa, acabamos por incorporar na rede aquilo que somos de verdade. Porém a dose de maldade e crueldade se tornou potencialmente maior. Escondidos pela face oculta de um teclado e uma tela, nos vemos no direito de criticar o próximo da maneira que convier. Não nos seguramos ao desferir o poder das palavras a outrem. Soltamos o verbo “doa a quem doer”.

Em tempos complicados pelo qual todos nós brasileiros passamos, se torna algo comum vermos embates severos e cruéis pela timeline. São posts ácidos que tomam forma em uma avalanche sem fim de xingamentos e provocações. Em muitas vezes acabam tornando-se ameaças ou se utilizando do intelecto alheio como objeto de reforçar seu pensamento.

Algo que ninguém pensa é que este ser que ataca no Facebook e vocifera palavras de ódio contra quem quer que seja é feito de carne e osso. Alguém está atrás do teclado digitando aquilo como se fosse senhor da verdade. Eu já fiz isso, com certeza você também deve ter feito. Porém não observamos que um ato dessa natureza seria equivalente ao mundo real bater na porta de seu vizinho e gritar horrores contra ele.

Não observamos que nossas atitudes no mundo virtual refletem no mundo real. Se em nossa timeline vemos somente tristeza e tragédias, esse será o reflexo em nosso dia a dia. Por isso penso agora umas 10 vezes antes de atualizar o feed do Facebook.

Antes nesta maravilhosa rede via a possibilidade de aprender uma receita nova, trocar ideias com um senhor mais velho sobre negócios, ler um artigo bacana daquele economista inteligente. Agora somente vejo brigas pelo político perfeito, pelo time perfeito, pelo youtuber perfeito. Como a conexão entre o virtual e o real se torna cada vez mais simbiótica vemos as mesmas brigas no mundo de carne e osso.

Há uma intolerância constante entre as pessoas que querem prevalecer seu desejo independente da opinião alheia. Vivemos olhando para as telas a reproduzindo com nossos familiares e amigos o ambiente hostil das redes virtuais. Dessa forma pensamos em nós mesmos esquecendo-se que ali ao lado existe alguém também. Acabamos não vendo as emoções, enxergando somente um punhado de palavras.

Mágoa virtual real

Dessa maneira se constrói a mágoa virtual: “Você me bloqueou?!”. Quem disse que o ato de bloquear alguém em uma rede social irá interferir na vida de uma pessoa? Mas hoje interfere. Igualmente a um mundo estilo Black Mirrror. Aprendi com meus erros passados a não postar nada no Facebook antes de um crivo crítico: a quem isso irá interferir? Entretanto falho em não realizar o mesmo crivo crítico — que outrora fazia — no mundo de carne e osso.

Nesses tempos de fatos alternativos ou pós-verdades podemos ser diversas pessoas ao mesmo tempo. Tomamos para si só diversas faces e vivemos nelas como se fossem vidas paralelas. Não medimos mais as consequências de nossos comentários online no mundo real e nossas atitudes no mundo real como comentários online.

Nos tornarmos zumbis de nossos perfis online, onde cada linha digitada se torna uma palavra dita. Por este motivo o crivo deve ser constante, para que não escorreguemos. Assim não podemos condenar quem está sob julgamento, muito menos absolver quem não teve veredito. Precisamos medir nossos caracteres da mesma maneira que medimos as palavras que dizemos.

Sem mais posts?

É complexo observar que tudo aquilo que digitamos se tornará um pequeno reflexo da maneira que nos comportamos. Poderá ser usado como um retrato fiel de nossa maneira tortuosa e não linear de pensar. Quem sabe pode ser um fotografia do momento.

Há pouco tempo atrás não tinha o cuidado necessário para tal feito, acaba por publicar tudo aquilo que julgava interessante, importante ou pertinente. Assim publiquei em minha timeline textos que me arrependi, fotos que deveria ter esquecido, frases que jamais deveriam ter saído de minha mente.

Não posso negar que minha forma de agir online reflete aquilo que sou. Um pesquisador sobre si mesmo, que aprende diariamente a lidar com as próprias frustrações. Entretanto não havia notado que o impacto daquilo que escrevia poderia afogar alguns e emergir outros. E isso acontece com nós todos.

Depois de uma discussão acalorada com meu cunhado observei que estava utilizando a mesma tática online na vida real: falo doa a quem doer. Da mesma maneira que o desavisado que relatei antes. Minha preocupação era somente o post (ou comentário). Sem a reflexão previa que merece qualquer palavra escrita acabava na mesma ode que tive que lidar no Facebook. Só que desta vez não havia um botão escrito “delete”.

Assim observei que minha prática online tornara-se minha forma de ver o mundo: cruel, vil e mesquinho. No entanto esquecia que o mundo não é somente cinza e sem cor, pode ser menos mesquinho ou cruel. Não toda a timeline real pode ser tragédia ou post político.

Por isso resolvi dar um brake no Facebook. Ainda não me desapeguei do Twitter (que estou retornando) e do Linkedin (que pouco uso), mas da rede do Zuckerberg vou mais espiar do que escrever. Felizmente sei que por lá estão a grande maioria das pessoas, que lá podem surgir virais, entre outros. Mas vou me purificar. É necessário. Antes que o Facebook vire “Lifebook” e engula todas as palavras que tinha ou terei.

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