“Coxinha ou petralha”: quero só ser brasileiro

Em tempos de divisão política, nosso país se tornou terreno fértil para dividir atitudes


Desde que me conheço por gente gosto de política. Mas não pense você que foi graças a inspiração de um político famoso ou um grande líder de nosso tempo. Meu gosto e inspiração não é tão nobre assim, é mais mundano. Tive por inspiração meu pai, ou melhor a situação dele.

Como professor em escola pública em quase toda sua carreira, meu pai nunca teve assim um salário considerado excelente, muito pelo contrário. Seu ganho ficava bem abaixo da média de professores de escolas particulares. Certa vez, com apenas 10 anos, vi na TV professores fazendo greve em frente as escolas. Logicamente para pedir aumento ao governador da época. No entanto meu pai ia para a escola que lecionava mesmo assim — tive oportunidade de ir com ele algumas vezes — furando o piquete.

Sinceramente não entendia exatamente o motivo que levava meu pai ir trabalhar, na época, ganhando tão pouco. Porém sabia que não era justo um professor que se dedicava com seu trabalho — levando pilhas de provas e cadernos de chamada para casa — ter como salário poucos reais. Por sorte meu pai trabalhava em dois empregos, sendo com o salário do outro emprego a maior fonte de renda.

Isso garantiu que eu estudasse em uma escola particular, onde em um trabalho de geografia a professora pediu que construíssemos uma plataforma de governo para o Brasil. Era o ano de 1994 e iríamos eleger novamente um presidente da República. Imagino que o objetivo da professora seria ver nossa capacidade de compreensão do mundo, e pelo rosto dela (que lembro até hoje) quando entreguei a folha com meus escritos parece que não tinha atingido seus objetivos.

Naquele pequeno pedaço de papel escrevi aquilo que julgava necessário para resolver os problemas do país. Lógico que o primeiro item foi aumentar o salário dos professores. Os outros itens não lembro tão bem assim mas transcorria entre plantar árvores e construir casas populares. Mas o salário estava lá incólume.

Infelizmente se passaram 23 anos desde quando escrevi — de maneira infantil, lógico — que a solução para o Brasil seria o salário dos professores. Quem sabe de maneira indireta queria dizer que a solução do Brasil é a educação. Somos um povo com baixo índice educacional. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em 2015, 8 em cada 100 entrevistados são capazes de refletir sobre um texto e compreender tabelas. Repito, somente 8% são considerados proficientes.

Sem sombra de dúvida que isso gera um terreno fértil para os aproveitadores de plantão. Aqueles que adoram dividir a população em grupos divergentes simplesmente para se manter com seu cargo (notoriamente eletivo). Quando não existe divisão entre as pessoas há a necessidade de criar uma, mesmo que isso seja mera fantasia.

Assim surgiram duas forças políticas “antagônicas”, porém com o mesmo DNA: PT e PSDB. Não é segredo para ninguém que ambos os partidos nasceram da antiga esquerda brasileira, esfacelada pela ditadura militar. Também é notório que ambos os partidos comungam de preceitos semelhantes: são social-democratas, acreditando na regulação do Estado na economia, gostam de estatais, etc. Ou seja, são farinha do mesmo saco.

“Seu coxinha de meia pataca!”, diria o petista. “Garanto que você é petralha”, grita o tucano. Bom, não sou nem A muito menos B. Aliás, já fui tantos partidos e candidatos que agora nem sei mais de que lado eu sou. Mas será que preciso de lado?

Vale a pena ter lado?

Infelizmente minha trajetória política se limitou no campo das ideias. Com meus pais sendo assalariados não poderia me dar ao luxo de militar exclusivamente para um partido ou agremiação política, tinha que me virar trabalhando. Com isso desde cedo fiquei envolvido com trabalho e estudo, relegando a segundo plano esse meu anseio político. Porém tudo mudou quando entrei na universidade.

Por sorte (ou azar, vai saber) encontrei um grupo de jovens que queria concorrer para o DCE (Diretório Central dos Estudantes) aquele ano. Não podia negar que eram pessoas bacanas, com ideias boas para os estudantes. Nem sabia ao certo o que seria direita, esquerda, centro, tucanos, petistas ou mariachis. Para mim eram somente jovens com a vontade de fazer nosso ambiente de estudo um lugar melhor para os alunos.

Participei das eleições ajudando uma chapa que infelizmente (ou felizmente, vai saber) perdeu. Nessa chapa haviam pessoas filiadas em diversos partidos: PTB, PSDB, PP, PMDB, entre outros. Nas outra outra chapa havia somente dois partidos: PT e PCdoB. Naquela época pouco me interessavam as siglas, me interessavam as ideias. Assim acabei me filiando ao PSDB. Era 2002 e haviam eleições gerais naquele ano, sendo que os candidatos que estavam na frente das pesquisas — que depois foram ao segundo turno — eram Lula e Serra.

Apesar de estar filiado ao PSDB tinha enorme apreço pela figura de Lula (quem nunca?). Veio de família humilde, sofreu e batalhou pelos trabalhadores em São Bernardo do Campo. Algo notório para quem não tinha nem mesmo o Ensino Médio. Entretanto por estudar Administração via que meus colegas pensavam diferente, diziam que ele seria um péssimo presidente, que iria transformar o Brasil em uma ditadura, que isso, que aquilo…

Depois de uma reunião (aquelas que você somente ouve e não fala nada) no diretório municipal do PSDB observei que exatamente aquilo que era falado por meus colegas era ecoado no diretório. (Sim, isso seria lógico, mas lembre-se que naquele tempo pensava somente nas ideias…). Decidi então acompanhar mais de perto os debates finais.

Ao assistir o debate final para a presidência naquele ano acabei por ver um Lula completamente diferente daquele que até então enxergava. Vi um líder carismático sim, mas com pouco conhecimento acadêmico. Caiu por terra todo o brilho que tinha pela pessoa. Me senti convencido em votar em José Serra, candidato que saiu derrotado. Daquele momento em diante não me envolvi com política partidária, apesar de permanecer filiado no PSDB. Porém continuei lendo nos jornais sobre política, ou seja, bem distante da realidade da política.

Mesmo assim comecei a escrever sobre o governo de Lula. Criei um blog e fiquei atento sobre as movimentações na política por meio da imprensa (tão somente). Comecei a dar opinião sobre determinados movimentos econômicos (sem ter uma base sólida para discutir). Usei um termo depois proferido por um senador (ditadura branca) e soltei o verbo contra o governo do PT.

Em 2010 me senti motivado a participar mais ativamente da política partidária. Fui até ao comitê municipal do então candidato José Serra e me disponibilizei para “trabalhar” voluntário. Participei de alguns caminhadas, jantares e reuniões. Me senti acolhido pelo lado que optei. Enxergava no “outro lado” mais erros do que acertos. Em outras palavras, tinha miopia política.A partir daquele instante estava em um lado, e não adiantava nada dizer o contrário eu tinha um lado.

Mas nosso pensamento flutua e comecei a observar o discurso de Marina Silva. Na época ela era candidata pelo PV, ou seja, não tinha chances mínimas de vencer as eleições. No entanto seus discursos me incentivaram a buscar mais informações sobre o que ela acreditava. Fui em seu site e vi uma rede de pessoas que tinham os mesmos propósitos que ela, sendo que em grande parte estavam ligados aos meus propósitos para um país melhor.

Então mudei de lado. Votei em Marina Silva no primeiro turno daquelas eleições. Não tive dúvidas em minha escolha. Muitos no PSDB diziam que havia virado a casaca, que tinha traído o partido. Outros nem deram bola, somente me afastaram. Foi então que aprendi que para alguns partidos não podemos mudar de ideia, avaliar melhor. Nesse momento descobri que eu não tinha lado e que esses lados não valem a pena.

“Loucura, loucura, loucura”

Foi exatamente assim que meus pais rotularam minha vontade em me lançar candidato a vereador pelo PSDB em 2012. Sem dinheiro acreditava ainda no poder das ideias. Imaginava a política de uma forma romântica onde as pessoas trabalhavam em prol do povo, das pessoas. Ao me tornar candidato queria fazer diferente para as pessoas, mudar os rumos da cidade e tornar ela exemplo para o país. Infelizmente estava enganado.

Depois de 3 meses de campanha e quase 40 km a pé caminhados entregando folhetos fiz exatamente 95 votos. Ora, nada mal para uma primeira vez. Entretanto observei que o esforço (físico e intelectual) não valiam nada perto do recurso financeiro. Ou seja, sem grana não se elege ninguém. Por sorte o prefeito que estava em nossa coligação ganhou as eleições.

Depois das eleições comecei a participar mais da política partidária no PSDB. Fui a reuniões, participei da comissão provisória do partido, me envolvi com a juventude do mesmo. Estava engajado na construção de meu nome político (já que não tinha dinheiro). Comecei a utilizar as redes sociais para manifestar meu descontentamento ou satisfação.

Porém os pensamentos eram diferentes. Existem alguns partidos que não conseguem visualizar os erros dos seus eleitos. Novamente a tal miopia política. Observei alguns erros do então prefeito e comecei a criticar suas posturas nas redes sociais, sem dó nem piedade. Lentamente o partido começou a me colocar na “oposição”, que na ocasião era formada pelo PT.Sem poder me manifestar fui em busca de outro partido que pudesse deixar eu expressar minha opinião.

Acabei me filiando ao PP por ver nas pessoas posturas independentes. De fato eram independentes, mas não tão independentes. Por o partido estar vinculado também ao então prefeito muitas de minhas críticas ecoavam como uma afronta aos membros do diretório. Mesmo assim permaneci por lá até o final das eleições de 2014.

Nessa ocasião acabei por fazer campanha para a senadora Ana Amélia Lemos ao governo do Rio Grande do Sul e ao senador Aécio Neves (PSDB) para a presidência da República. Na época eu não tinha dúvidas que poderiam fazer algo diferente pelo Rio Grande e pelo Brasil. Com o tempo observei que havia um movimento político para dividir o país, nem mesmo pessoas em lados opostos se conversavam mais.

Meus amigos e conhecidos que votaram em Dilma Rousseff (PT) começaram a não falar mais comigo. A campanha deixou de ser um momento de reflexão e começou a se tornar uma arena de xingamentos. As redes sociais (Facebook principalmente) se tornou um ringue de batalhas campais pela razão alheia. Não havia mais o debate de ideias, havia uma miopia política generalizada.

Findada as eleições de 2014 e os candidatos de meu partido perdendo estas, observei a mesma miopia política dentro do diretório. Havia uma divisão interna entre uns que queriam candidato a prefeito e outros que queriam apoiar o candidato do prefeito anterior. Assim sucedeu uma disputada pela presidência do partido que não cheguei a desvendar o final. Mudei novamente de lado e me filiei ao Democratas.

Qual é o lado?

Antes da minha ida ao Democratas comecei em 2015 fazer parte do MBL. Participei de algumas manifestações no início daquele ano e tinha por objetivo integrar os membros do movimento na minha cidade em um partido político. Fiz esse movimento porque tinha ciência que política se faz nos partidos, não por se querer, mas por imposição da lei. Também sabia que no MBL haviam pessoas com boas intenções e queria que estas permanecessem engajadas em construir um país melhor (parecido com meu trabalho de 23 anos atrás). Acabei filiando no Democratas em torno de 10 pessoas.

Naquele momento tinha escolhido novamente um lado, e dessa vez era sem volta. Com o impeachment da presidente Dilma batendo a porta se tornava praticamente impossível voltar a se converter como alguém de “esquerda”, sendo que eu me identificava com a direita.

Foi então que começaram as movimentações para a escolha do candidato a prefeito em 2016 e para minha surpresa o candidato escolhido foi o mesmo do atual prefeito. Havia pouco antes saído de um partido que tinha “lado” para entrar noutro partido que acabou ficando do mesmo “lado”. Não haveria de ter outra opção? Infelizmente não havia outra opção.

Mais uma vez escolhi meu candidato por aquilo que acreditava e não pelo “lado”. Tentei modificar a escolha, tentar uma segunda opção, via alternativa. Sem sucesso. Acabei me desfiliando do Democratas em março de 2016, com menos de um ano, levando junto comigo um somente.

Deveria ter ido mas não foi

Ainda em 2015 fui convidado a ingressar no PSL/Livres. Acreditava que o partido por querer ingressar com o nome de Livres teria por si só a possibilidade de escolher, debater e dialogar. Me filiei ao novo partido em fevereiro de 2016 com o intuito de me candidatar a vereador. Por força do destino(e por escolha das pessoas do partido) acabei me lançando pré-candidato a prefeito. Uma atitude corajosa, pois teria que realizar uma campanha baseada somente na internet.

Infelizmente dessa vez acreditava que tinha encontrado um partido sem lado, que estava ligado aos meus propósitos pessoais. Só que infelizmente não foi bem assim. Tinha certa resistência por parte de alguns filiados a nomes que havia escolhido, além da resistência com relação a minha forma de pensar. Resolvi então sair do partido, mais uma vez.

Seria traição?

Durante esse período o auge de minha participação política se deu me envolvendo com o MBL. No início imaginava que poderia ali colocar em prática meus preceitos pessoas de política. Haviam pessoas engajadas, milhares apoiando, pensamentos políticos verdadeiros. Tinha uma energia de renovação, de mudança.

No entanto diferente de outros movimentos políticos populares, o MBL foi construído com o intuito de permanecer no poder. Logo após o impeachment da presidente Dilma, membros do MBL (no qual tinha contato) foram conversar com interlocutores do presidente Temer. Não seria sacrilégio se dias antes um líder se manifestasse contra o então presidente em exercício em grupos de mensagens. Fiquei desiludido. Vi de um lado partidos se esgueirando para ocupar a terra arrasada por um processo doloroso de impeachment e do outro quem se dizia defensor das pessoas tentando conquistar uma boquinha.

Pode até você leitor me chamar de tolo. De fato fui, não há o que negar. Até que na verdade todos fomos tolos. Manipulados por partidos políticos que se apropriaram da vontade popular para assumir o poder. Agora praticam os mesmos atos libidinosos contra a população, contra o povo, contra os meus preceitos políticos.

E agora…

Não há partido certo ou errado. Não há lado certo ou errado. Existem somente lados de um mesmo prisma que permeia nossa sociedade tropega, subjugando os mais fracos e fortalecendo ainda mais os parasitas econômicos e sociais.

Tempos atrás nas redes sociais fui chamado de coxinha por uns, por outros de petralha. De direitista e de esquerdista. São raros os momentos que as pessoas argumentam sem usar rótulos, cartazes que identificam grupos como “nós ou eles”. Esquecem que estamos todos no mesmo barco a deriva discutindo sobre lados políticos — ciência estudada desde a Grécia antiga — sem nem mesmo saber utilizar direito nosso smartphone de todo dia.

Somos tolos não porque fomos enganados, passados para trás. Mas sim porque ficamos a mercê dos lados que politiqueiros hábeis nas palavras nos imputam a escolher.

Estou me filiando novamente em um partido político, a Rede, partido da Marina Silva, do Alessandro Molon e do Randolfe Rodrigues. A primeira foi do PT, do PV e do PSB, o segundo foi do PT e o terceiro do PSOL. Tiveram lado também como eu, como você.

Entretanto se queremos tirar esse nosso país do atoleiro político, econômico e social não podemos mais ter lados. Seja de direita, esquerda, centro, liberal ou conservador, todos nós temos um lado em comum: somos brasileiros. Esse deve ser o mais importante lado agora.

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